Dia 1 - O início de uma Aventura: Coimbra-Castelo Branco/Monsanto

Novembro de 2017, 5h19

O Comboio Regional da CP acaba de parar em Coimbra-B. Lá fora está um vento desagradável, mas o calor anormal para a altura do ano não deixava ninguém indiferente.

Mochila às costas, entro no comboio e procuro logo um banco onde possa deixar toda a bagagem que levo, sentindo já o cheiro à aventura e à (re)descoberta do mundo que pairava sobre toda aquela adernalina. O destino estava escolhido: Castelo Branco, com paragem para mudar de Linha no Entroncamento.

Da viagem até ao Entroncamento pouco posso contar. Apenas registo a entrada do meu companheiro de viagem, o meu amigo Cravo, que entrou algum tempo depois já na bonita cidade de Pombal.


Criatividade na Estação do Entroncamento... e muitos sorrisos!
Criatividade na Estação do Entroncamento... e muitos sorrisos!
 

A chegada ao Entroncamento foi tranquila.

A estação ferve de gente que segue viagem para imensos pontos do país, não fosse este talvez o maior nó ferroviário nacional, onde as pessoas se iam amontoando à espera do comboio ora para Coimbra, ora para o Porto, ora para Lisboa. 

Também a Linha da Beira Baixa eram um destino para alguns, tal como para nós.

Pouco depois de saborear o pequeno-almoço e uma “bica”, tomamos a direção das linhas mais a Este da estação que indicavam os comboios da Linha da Beira Baixa. Pouco depois estávamos a tomar o nosso lugar numa das carruagens. Agora sim, começava a nossa viagem!

Com o sol já desperto, os vagões tomavam a direção do Tejo, desfilando primeiro por zonas habitacionais até chegar à beira rio e a Vila Nova da Barquinha, um local bastante bonito para se dar um passeio à beira Tejo.

Logo a seguir, uma das zonas mais fantásticas da Linha: o castelo de Almourol no meio do Tejo e o Convento de Nossa Senhora do Loreto em Tancos. O Castelo de Almourol é uma das maiores maravilhas nacionais, construído no meio do Tejo e frequentemente associado à Ordem dos Templários e a Tomar. Uma fortificação importante para a Linha do Tejo e para cidades como Tomar, Abrantes e outras do Médio Tejo. Construído pelos Muçulmanos, foi conquistado por D. Afonso Henriques.

Segue-se depois Constância, Abrantes e algumas povoações dos concelhos de Mação e Gavião, onde se destaca a imagem do Castelo de Belver, castelo que foi construído por D. Sancho I entre 1210 a 1212 e se apresentava também como um ponto estratégico na Linha do Tejo e na Reconquista Cristã, mas sobretudo como uma fortificação de importância para conter ataques vindos de Espanha.

Daí a paisagem altera-se: poucas povoações, muito arvoredo, escarpas e rochas em direção ao rio e uma linha que vai recortando a água. Um percurso excepcionalmente bonito e que aconselho a fazer de comboio, embora na altura ainda existissem grandes extensões ardidas nos incêndios de 2017.

Mas quase sem que nos apercebamos chegamos à melhor parte desta viagem: as Portas de Ródão, um conjunto de rochedos por onde o Tejo passa e que parece ser uma entrada em Portugal e no Tejo Português, ali junto à terra raiana de Vila Velha de Ródão.

Nem o Comboio nem o Telemóvel ajudaram... 
mas ficou o momento de cruzar as  Portas de Ródão

Daí a Castelo Branco foi um pulinho e finalmente podemos desembarcar no coração da Beira Baixa. Quando chegámos não sabíamos o que esperar: tínhamos a ideia de ir para as aldeias de Idanha-a-Nova, mas na internet não existiam horários de autocarros e quando descobrimos (a estação era ao lado da central de camionagem) percebemos que tínhamos umas boas horas em Castelo Branco no pico do calor.

Apesar do calor, Castelo Branco mereceu uma visita. É certo que tínhamos o tempo um pouco contado e decidimos fazer uma visita mais citadina sem museus nem grandes monumentos. Ficaria para uma próxima visitar o Jardim do Paço Episcopal (e o Museu Francisco Tavares Proença Junior), o Museu do Cargaleiro ou até a Casa da Memória…

Caminhámos pela Avenida Nuno Álvares, rodeada de árvores altas (o que atenuou o calor infernal que Castelo Branco nos transmite)até chegarmos ao Jardim da Devesa e à Câmara Municipal onde se encontram o brasão da cidade. Daí partimos até a um conjunto de Solares e Casas Senhoriais, casos da Casa do Arco do Bispo, Solar dos Cardosos ou Solar dos Motas.

Perdemo-nos nas ruas e ruelas mais estreitas que dão para o Castelo e que conservam boa parte da história da cidade albicastrense. Depois de uma boa subida visitámos o Castelo, datado de 1214, assolado pelas guerras peninsulares, guerras civis e invasões francesas, resistindo ainda o seu “núcleo duro”. Tanto daqui como do Miradouro de São Gens (que também visitámos) temos uma vista fantástica da Beira Baixa, da região Raiana e até de Espanha.

Lá ao fundo... a Espanha!

Depois disto, descemos em passo apressado (estávamos a ficar com pouco tempo) até à Sinagoga de Castelo Branco, símbolo da presença judaica no nosso país. Não deixámos Castelo Branco sem passar pela sua bonita Sé, também conhecida por Igreja de São Miguel, que partilha diocese com Portalegre. Pouco depois almoçávamos na Pastelaria São Jorge, uma sopa e uma bifana. Depois do senhor que estava a atender meter conversa connosco para saber de onde eramos e para onde íamos, pagou-nos os cafés.

De novo chegados à estação de camionagem era hora de procurar o autocarro em direção à Idanha, uma viagem que terá demorado pouco mais de meia hora. Depois de entrarmos na central de camionagem de Idanha-a-Nova e depois de sairem alguns dos fregueses que faziam a viagem, perguntámos ao motorista qual o autocarro para Monsanto, uma vez que já eram umas duas horas e pouco da tarde e não nos apetecia ir a pé para lá.

E ele riu-se. “É este. Podiam ter tirado já bilhete, mas eu espero por vocês”. Fomos à bilheteira tirar mais um bilhete para a coleção, tal turistas desinformados que estávamos.

Resumo disto: às 3 da tarde estávamos finalmente em Monsanto.

Terras de Idanha e da Raia

Confesso que não ia ao acaso a Monsanto. Tenho uma paixão muito forte pelas terras da Beira Baixa, em particular pelo concelho de Idanha-a-Nova, local onde participei em acampamentos e inclusive cheguei a dormir juntamente com cerca de 2 mil pessoas no castelo de Monsanto.

É sempre uma alegria regressar a Monsanto, tal como foi nesse dia. A camioneta deixou-nos na Praça dos Canhões onde podemos observar os canhões em memória à arquitetura militar e às várias tentativas de tomar Monsanto. Uma vista fantástica sobre as terras raianas.

Subindo um pouco é possível ver a Igreja Matriz datada do século XV, com a sua porta romana. Podemos ainda observar em Monsanto uma quantidade incrível de capelas e igrejas antigas. E é junto de uma delas (Igreja da Misericórdia) que se encontra a Torre de Lucano, onde se pode ver um famoso galo de Prata, símbolo da “Aldeia mais portuguesa de Portugal”.

Percorrer a pé Monsanto é fantástico. Visitar uma pequena Gruta com sinais de ocupação humana, bem escavada numa enorme rocha, fazer algumas compras numa mercearia tradicional, encontrar pessoas que contam histórias sobre a região. Também várias são as menções ao médico e escritor Fernando Namora, que por aqui viveu e é recordado pelas gentes.

Fomos experienciando isto à medida que subíamos ao Castelo e também ao Penedo do Pé Calvo, os dois locais com vista mais panorâmica. Incrível a escarpa que existe para aceder ao Castelo e a dificuldade de um invasor conseguir conquistar Monsanto. No Castelo existe uma pequena capela dedicada à Nossa Senhora do Castelo, do lado de fora uma dedicada a São Miguel mas também as ruínas de outra capela, dedicada a São  João.


Vista do Castelo de Monsanto

É ainda possível ver nesta zona, a necrópole de São Miguel, cujas sepulturas eram escavadas na pedra com o formato dos corpos sepultados.

Descemos pouco depois de absorver todo este pedaço de história do nosso Portugal, não sem antes tirar algumas fotografias panorâmicas e ver cada recanto do Castelo, desde a Torre de Menagem ao Poço.

Havia no entanto um problema: eram 5 e tal da tarde e estava a ficar de noite! Estávamos em novembro, afinal! Demos uma olhada à volta e tentámos perceber onde poderíamos pernoitar… E eis que escolhemos uma Capela chamada São Pedro de Vira-Corça, já bastante antiga. Um local mais resguardado para quem ia fazer um acampamento selvagem.


Acampamento Selvagem no São Pedro de Vira Corça

A partir daqui decidimos passar numa mercearia tipica no centro de Monsanto e comprar alguma coisa para fazer uma refeição. Cozer uns ovos, fazer uma massa instantânea, algo que fosse rápido.

O dia caminhava para o fim e já escurecia. Montámos tenda atrás de um rochedo para que não fossemos muito notados pois para além de uma pequena estrada (onde penso eu terá passado um ou dois carros) existiam duas moradias mais afastadas. Depois disso cozinhámos num pequeno fogão de campismo (que aconselho para quem partir numa aventura destas) o jantar que comemos pouco depois, deveriam ser umas 6 e pouco. O dia chegou ao fim (tinhamo-nos levantado bastante cedo) e pouco depois estávamos na tenda a conversar um bocado até cairmos para o lado.

Jantares em campo


Terminou assim o primeiro dia desta aventura, mas ainda há mais para contar...