Dia 2 e 3: Monsanto, Idanha-a-Velha, Penamacor
Depois de um dia em grande, esperava-nos um dia de maior
esforço físico (ou pelo menos era o previsto) e como também tínhamos acordado
bastante cedo no dia anterior, só nos
levantámos já deveriam ser umas 8 da manhã. Pequeno-almoço tomado e estava na
hora de seguir destino.
Decidimos seguir a Grande Rota das Aldeias Históricas que
cortava alguns quilómetros a distância entre Monsanto e Idanha-a-Velha, o
próximo destino. E aí é que apanhámos o susto de uma vida!
Depois de passarmos a aldeia de Carroqueiro, embrenhámo-nos
no trilho. Este trilho apesar de estar marcado, atravessa alguns portões que
pensámos ser por causa da caça. Isto quando já a cerca de um quilómetro de Idanha-a-Velha
damos de caras com uma vaca!
E depois dela passaram bem mais. Pensámos seriamente que
estaríamos no meio de uma manada e até ponderámos regressar à estrada, que
seria fazer mais uns 4 ou 5 quilómetros.
Por isso, nem pensar!
Enfrentámos mesmo “o boi pelos cornos”, fizemos o que
faltava do trilho e ao ver uma grande quantidade de gado bovino junto a uma
cerca e não existir nenhum caminh marcado, decidimos passar em volta desta com
algum receio de poder ser atingidos por um valente chifre. Mas “no pasa nada” e
chegamos finalmente à nossa Egitânia, outra aldeia que me transmite uma grande
paixão.
Idanha-a-Velha, antigamente Egitânia para os Romanos, foi
uma sede de diocese e importante cidade da Beira Baixa. Era a cidade mais
importante da região, com um poder bastante grande e dominador sobre aquele
território só equivalente à cidade da Guarda e à cidade de Portalegre.
A nossa entrada foi pela Porta Norte, a estrutura mais bem
preservada do que resta da muralha de Idanha. Entrámos aqui nesta mini cidade,
hoje reduzida a menos de uma centena de habitantes. Uma mini cidade que tem uma
antiga Sé Catedral, uma Torre de Menagem atribuída aos Templários, uma Praça de Touros, um Solar, um Museu entre tantas
outras coisas.
Recomendo vivamente pararem para tomar um café e ouvir
algumas histórias que por aqui se contam. Ouvimos algumas histórias e acabámos
a comprar mel a um senhor que nos pediu alguma ajuda pois “os tempos estavam
difíceis” e não conseguimos dizer que não.
Vale a pena parar na Sé e no Museu Egitanense, bem como dar
uma saltada ao Rio Ponsul e vislumbrar a Ponte Romana. Depois dessa visita à
Sé, seguimos viagem pois o nosso destino final ainda estava a um pouco mais de
20 quilómetros. Esticão grande pois já passaria das 11h30.
Diga-se que caminhámos bastante em pouco tempo, talvez por não estar um calor excessivo. Parámos para almoçar em Medelim, por volta do 12h30, onde cozinhámos num jardim junto à Nacional de acesso a Monsanto. A paragem serviu ainda para tomar café e voltar a ver o caminho que nos esperava: 15 quilómetros mais coisa menos coisa.
Parecia-nos possível chegar antes de anoitecer e para além
disso jogava o Benfica e o Cravo não podia deixar de comparecer num café para
ver o jogo. Acábamos por ter muita sorte, pois mal saímos em direção a
Penamacor passou por nós um senhor com uma carrinha de caixa aberta. O Cravo,
algo desesperado pelo que já tinhamos andado e pelo que ainda iamos andar
(iamos fazer mais de 30 quilómetros no total do dia) pediu boleia a este senhor
simpático que nos acedeu embora tenha dito que ficava pouco depois da Aldeia de João Pires, mas que até lá nos
podia ajudar.
Alegria das alegrias: poupavamos uns 7 quilómetros e ainda
por cima da parte que o relevo se tornaria mais complicado. Acedi, até porque
estava cansado também e este tempo podia servir para ainda darmos uma
espreitadela em Penamacor.
A viagem de carrinha foi pequena, mas soube-nos pela vida.
Agradecemos muito ao senhor (ainda hoje não me lembro do nome dele) e partimos
rumo à próxima aldeia: Aldeia do Bispo. A estrada ia-se mantendo mais ou menos
plana o que facilitou e muito a viagem, mas também o facto de esta aldeia ser
bastante próxima (fizemos uns 2 quilómetros talvez).
Mais alguns quilómetros de Nacional 332 e começámos a ver o
nosso destino ao longe, o que nos animou bastante. Passámos algumas quintas,
algumas herdades e pequenas terras aqui e ali até chegarmos ao Hotel Termas de
São Tiago, um hotel de excelência às portas de Penamacor.
E eis que chegamos a Penamacor! Se por um lado o sentimento era de
felicidade, por outro era de tentar ganhar coragem para o que faltava.
Para quem não sabe, Penamacor fica num penhasco e desta vez
estávamos a pé!
A súbida foi tramada! Mas tivemos coragem para a fazer toda,
passando pelo Jardim da República, Câmara Municipal, entre outros edificios,
entrando nos pitorescos recantos de Penamacor. Visitámos o Pelourinho, a Igreja
da Misericórdia, o Castelo e a Torre de Vigia. Terminámos o dia num miradouro
fantástico sobre a Vila Madeiro.
Penamacor é uma vila muito próxima da fronteira com Espanha,
planeada para defender os interesses portugueses pelo mestre Gualdim Pais (que
também projetou Monsanto e outros castelos da região). Situa-se numa “Penha”
tal como Penha Garcia, vilas e aldeias instaladas em penhascos para terem maior
defesa sobre ataques espanhóis. É ainda conhecido pelo seu gigantesco madeiro
que se realiza entre o Natal e os Reis, no centro da vila.
Depois de conhecermos estes encantos e sabermos um pouco
mais sobre aquele concelho (não esquecer que a norte existe a Serra da Malcata,
destino que infelizmente não poderíamos visitar), voltámos a descer um pouco
até ao Café do Arco onde assistimos ao jogo do Benfica, o que seria imperdoável
que não acontecesse, segundo o João Cravo.
Por lá comemos e bebemos e depois de alguma azia (além de
uma exibição pobre, o Benfica perdeu)
fomos tentar encontrar um local para pernoitar. A escolha recaíu sobre a Capela
de São Domingos, um santuário mais retirado na parte norte da vila.
Desta vez adormecemos mais rapidamente (também mais tarde,
diga-se) e o descanso soube bem, mas vislumbrava-se o final da viagem.
Acabámos por apanhar o autocarro em direção a Castelo Branco
ao pé do Jardim da República e a viagem feita no sentido inverso. Desta vez
pouco apreciámos a paisagem da Linha do Tejo, pois passámos boa parte a
dormitar. A viagem terminou onde começou, na estação de Coimbra-B e ficou o
desejo de voltar àquelas terras da Raia!




